cause life is short but sweet for certain.

a caixa de pandora

Domingo, Setembro 16, 2007

sempre havia pelo menos uma luz acesa. e era sempre a dela. todos os dias, enquanto esperava o sinal abrir, ele abraçava um pouco o volante, para que seu olhar chegasse lá, na altura certa daquela janela. verde. então já podia ver, lá estava. ela. imaginava o que estaria fazendo até tão tarde, ensaiava uma ligação. mas não. não saberia poderia não queria querer saber. acreditava que se pensasse bem forte ela poderia sentir. como funciona às vezes quando encaramos alguém. atrai. depois se achava um louco. besteira. lembrava daquela cena em que o rapaz dizia algo como não sei explicar muito bem mas sinto que se não falasse com você estaria perdendo algo muito importante entende. até mesmo ele se achou esquisito pensou. então... por que não eu? porque ela. esse era sempre o fim. e essa tem sido a resposta pra todas as perguntas reparou. mas por que? e já sabia. a estrela do dia, o sol da noite.
mas então chegou aquela noite. em que não havia brilho através das cortinas. e, assim, na escuridão mal sabia distinguir qual era A janela. foi quando não soube o que pensar. não tinha perguntas. apenas a resposta. que era luz.

****

I wish I was in a suitcase on my way back home
to you there's a light in there
I keep on talking to myself
god, can you hear me?

****

estavam ali as portas
janelas e varandas.
estavam ali
na fronteira do olhar
onde o de dentro encontra
justamente
com o de fora.
nesse ponto exato
elas estavam.
bastava um gesto.

mas o meu estar parado
era maior do que eu.
estar parado/estar vivo:
a mesma incompreensão
e medo
entre mim e aquele estar das coisas.

estar ali
como nunca ter chegado
estar ali
como ter visto absolutamente tudo.
estar ali
por estar ali;
e além de mim
o que eu não ousava

ah:
relembro a amplidão dessas varandas
os pequenos raios de luz
nos vidros coloridos das janelas.
revejo a dura consistência da porta
cerrando seu segredo. e me retomo
ali
no imóvel do gesto que não fiz.

(...)

mas continuo ali.
aqueles espaços
permanecem tão mortos de mim
como um corpo que se ama
e não se toca.

(caio fernando abreu)
posted by déa, 11:36 PM | | 11:36 PM

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

fecho a boca
e abro os olhos


palavras escorrem pelos cantos
formigam
a boca se abre
formigueiro
elas irrompem
transbordam
levadas pelas enchentes
nas ruas, nos bairros
na (c)idade
explosão silenciosa
involuntária
do que nunca foi dito
uma só vez
de uma só vez
num suspiro
respiro
pensamento cuspido
boca afora
casa, botão da mente
que entrega
revela
desvela gente
daqui só vejo
desejo
e com palavras mudas
me (d)enuncio
(a)pelo olhar




*há de haver algum lugar
um confuso casarão
onde os sonhos serão reais
e a vida não
(...)
um lugar deve existir
uma espécie de bazar
onde os sonhos extraviados
vão parar

(chico buarque)

****

sou eu mesmo, o trocado,
o emissário sem carta nem credenciais,
o palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro
sou eu mesmo, a charada sincopada
que ninguém da roda decifra nos serões de província.
quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
sou eu mesmo, a charada sincopada
que ninguém da roda decifra nos serões de província.

(álvaro de campos)
posted by déa, 5:57 PM | | 5:57 PM