only hope can keep me together.

A Caixa de Pandora

Segunda-feira, Março 19, 2007

eu precisava

me libertar de palavras
solta-las
para que pudessem voar
feito passarinho
saindo da gaiola
janela afora
buscando nova morada
pra começar
um novo ninho
pra pousar
e ali repousar
em companhia de outro
também já cansado
de voar sem rumo

minhas letrinhas flutuam no ar
partiram em revoada
levante as mãos quem quiser pegar
amar não custa nada





*...tenaz assim
feito passarim.
é de mágica
que eu dobro a vida em flor
e ao senhor de iludir
manda avisar, que esse daqui
tem muito mais amor pra dar

posted by Dedea, 9:05 PM | | 9:05 PM

Segunda-feira, Março 12, 2007

vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.

então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. vem para que eu possa acender incenso do nepal, velas da suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros, possíveis ou presentes impossíveis. dos meus muitos ou nenhuns eus. vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. porque nada mais sou além de chamar você agora, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.




caio fernando abreu
posted by Dedea, 8:45 PM | | 8:45 PM

Sexta-feira, Março 09, 2007

a máscara que faz ouvir melhor

aqui os dias passam depressa
quase não consigo acompanha-los
coisas
pessoas
com outras coisas e pessoas dentro de si
num abrir de caixas infinito
uma cadeia sem grades
um pensamento bonito
estamos uns nas mentes dos outros

coloco a máscara de dormir
e consigo ouvir melhor
todos que moram em mim
respiram meu ar
sussurram em meus ouvidos
e como se já não fosse muito
brincam com meus sonhos
escorregam nas nuvens comigo
e brindam ao céu
que é nosso lugar predileto
nosso esconderijo secreto
pelo dom da onipresença
podemos a qualquer tempo nos encontrar
pois ele está sempre lá
o mesmo
sobre nós





*perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
mudou de cara e cabelos
mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo:
mas está comigo está perdido comigo
teu nome
posted by Dedea, 5:12 PM | | 5:12 PM

Sexta-feira, Março 02, 2007

da chegada do amor

sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.

sempre quis uma amor que elaborasse
que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.

sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.

sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.

sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço
é observar o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.

contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.

sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.

sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.

sem senãos.

sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.

eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.

sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.

sempre quis um amor não omisso
e que suas estórias me contasse.

ah, eu sempre quis uma amor que amasse.



elisa lucinda
posted by Dedea, 10:44 PM | | 10:44 PM